
Teve uma época da minha vida (por volta dos meus 15 anos) em que eu atravessava a cidade de metrô carregando telas, cavalete e um banquinho dobrável. Saía da Aricanduva (zona leste da cidade) em direção à Avenida Paulista para tentar vender meus quadros — óleo sobre tela — na calçada, em frente ao MASP.
Não dentro. Na calçada mesmo.
Vendi alguns, é verdade. Poucos. O suficiente para insistir por um tempo e, depois, perceber que aquilo não se sustentava.
Antes disso, tentei trabalhar com distribuição de alimentos em redes de postos de gasolina. Pagavam tão pouco que a conta simplesmente não fechava.
Teve também a fase dos salgados, eu e minha mãe, a cozinha completamente branca de farinha, uma bagunça imensa e aquela constatação meio dura: trabalhar muito não garante que a gente vai ter lucro e poder viver daquilo.
Só depois vieram os empregos formais, a carteira assinada, o famoso “agora vai”. E foi indo. Meio torto, meio improvisado, como acontece com muita gente.
Anos mais tarde, a entrada na indústria farmacêutica mudou bastante coisa (inclusive seria possível pagar a minha faculdade). Primeiro como propagandista, depois como gestora de equipes comerciais (fiz pós graduação em desenvolvimento gerencial e muitas outras formações). Fiquei mais de uma década nessa área até migrar, já experiente, para o desenvolvimento humano.
Abri minha empresa e sigo até hoje acompanhando pessoas, carreiras, lideranças, escolhas difíceis e travessias que raramente aparecem nas histórias contadas no Linkedin.
Quando olho para trás, não vejo uma trajetória bem desenhada. Vejo um caminho caótico, cheio de tentativas, erros, ajustes e sobrevivências. E, naquela época, eu só estava tentando dar conta.
Não tinha repertório, linguagem, nem distânciamento suficiente para entender o que realmente estava em jogo.
Eu vivia a carreira, mas ainda não conseguia lê-la.
Esse entendimento veio depois.
Veio quando comecei a trabalhar com desenvolvimento humano e percebi algo curioso: muitas das dificuldades que eu vivi sem saber nomear se repetiam, com pequenas variações, na história de outras pessoas. Algumas dessas situações eu atravessei na própria pele. Outras eu passei a ver, com muita frequência, meus clientes tropeçando nelas — gente competente, experiente, dedicada.
Foi aí que a carreira deixou de parecer apenas uma sequência de escolhas individuais e começou a se mostrar como um campo cheio de dinâmicas silenciosas.
Coisas que não são planejadas por ninguém, não são “armadas” contra nós, mas que vão se apresentando como normais, razoáveis, até desejáveis. Justamente por isso, passam despercebidas. E, com o tempo, vão pesando mais do que imaginamos.
São coisas sobre as quais ninguém conversou comigo na época.
Vale dizer algo importante antes de seguir. Essas dinâmicas não aparecem só no começo da vida profissional, nem desaparecem com experiência, cargo ou reconhecimento. Eu já vi essas situações atravessando profissionais em diferentes fases da carreira — inclusive pessoas tecnicamente brilhantes, líderes experientes, diretores e CEOs. E com certeza, de um universo de possibilidades, hoje eu resolvi destacar apenas 4 nesse texto.
Não são sinais de incompetência. São zonas cegas que podem surgir em qualquer trajetória, justamente quando a gente acha que já entendeu como o jogo funciona.
Uma dessas dinâmicas é a falta de rede de apoio. Sim, gênero tem peso nessa história.
Especialmente para mulheres, isso não é detalhe. É estrutura — ou a ausência dela.
Quando tudo recai sobre uma única pessoa — trabalho, casa, filhos, agenda, comida, saúde, escola, gestão emocional de todo mundo — crescer profissionalmente vira quase um exercício de resistência. Não por falta de talento ou ambição, mas por exaustão acumulada. Um cansaço que não aparece no currículo, mas aparece no corpo.
E aqui tem um ponto que quase nunca é dito: muitas mulheres aprenderam a não pedir ajuda.
Aprenderam cedo que dar conta de tudo sozinha era virtude.
Que pedir apoio era sinal de fraqueza.
Que dividir responsabilidades era incomodar.
Que mostrar cansaço era falhar.
Mesmo quando existe alguma possibilidade de apoio, elas não acionam. Centralizam. Seguram. Sustentam. E seguem chamando isso de autonomia, quando muitas vezes é só solidão bem organizada.
Para cada executivo bem-sucedido, costuma existir uma retaguarda silenciosa (a maioria demulheres) operando nos bastidores: uma esposa que gerencia a casa e a vida emocional, empregadas que mantêm a rotina funcionando, secretárias que organizam o caos profissional, motoristas que ganham tempo, babás, cuidadoras, assistentes.
Mesmo quando não falamos de CEOs, muitos homens contam com algum tipo de apoio constante. Alguém que resolve, lembra, organiza, sustenta o cotidiano. Isso não é mérito individual. É arranjo social.
A diferença é que, para a maioria das mulheres, essa retaguarda não existe — ou existe de forma frágil, instável, sempre negociada. Ainda assim, espera-se delas o mesmo nível de entrega, foco e disponibilidade. Como se estivessem jogando o mesmo jogo, nas mesmas condições. O que não é verdade!
Muita gente aprendeu que escutar críticas é perigoso. Que admitir ajuste é perder força. Especialmente em ambientes competitivos, “acolher” um conselho, considerar um “toque”, uma sugestão, vai sendo vista como perda de tempo ou algo de menos importância.
Ao longo da vida profissional, erramos, tropeçamos. Faz parte.
Existe ao menos 2 tipos de pessoas que devíamos prestar atenção ao que dizem sobre nós:
Há pessoas maduras, experientes, que apontam coisas difíceis de ouvir — às vezes duras demais. Ignorar isso costuma sair caro. Não porque a gente deva viver refém da opinião alheia, mas porque ninguém cresce sem revisar o próprio passo em algum momento.
E o outro tipo de pessoa é aquela que não gosta de você. Que fala sem filtro, sem cuidado, sem intenção de ajudar.
Curiosamente, às vezes é ali que aparece uma verdade que amigos, gestores ou pessoas próximas não teriam coragem de dizer.
O desafio não é aceitar tudo, mas separar o conteúdo da forma. Dá trabalho, cansa, mas revela muita coisa.
Há ainda outra dinâmica bastante valorizada socialmente: quando a carreira vira o centro absoluto da vida.
Quando a carreira vira eixo central da identidade, muita gente aprende a se mover pelo mundo no modo “eu primeiro”.
A gente aprende cedo que foco no seu objetivo é virtude.
Que disponibilidade total é sinal de comprometimento.
Que colocar o trabalho em primeiro lugar é maturidade profissional.
Pouco se fala sobre o preço disso, até que ele começa a aparecer nas relações.
Vejo isso com frequência. Pessoas competentes, inteligentes, que vão aprendendo a olhar tudo a partir das próprias metas, das próprias urgências, das próprias dores.
São incapazes de olhar para o entorno e perceber como podem ajudar os outros em suas jornadas. Tem uma mentalidade de escassez brutal, acreditam que se dedicarem atenção e cuidado com o outro, estarão perdendo o tempo, que poderia ser usado no alcance de seus objetivos profissionais.
Sem perceber, acumulam atritos, inimizades, pontes queimadas. E depois se surpreendem ao não avançar, como se o contexto estivesse sendo injusto.
Crescer não deveria significar endurecer. Ambição não precisa vir acompanhada de anestesia relacional. Relações não são um detalhe da carreira; fazem parte do caminho — gostemos ou não.
E tem também a dinâmica dos recursos. Ou, mais especificamente, da falta deles.
se tudo der errado, quanto de dinheiro tenho na reserva de emergência? Por quanto tempo sobrevivo com esse recurso? Aliás, tenho reserva de emergência?
levando em conta minha saúde fisica e emocional, tenho energia para alcançar os objetivos propostos? Que preço terei de pagar por isso? Estou disposta(o)?
honestamente, tenho o tempo necessário que esse objetivo necessita? Se não tenho, estou disposta a sacrificar o quê para arranjar tempo? Essa é uma boa escolha?
terei de sacrificar pessoas da minha família, ao aceitar mudar de cidade ou pais por exemplo? Que impacto grandes mudanças podem ter na dinâmica das relações? O cargo e o salário atrativo compensam? Estou levando em conta a opinião de outras pessoas envolvidas?
Essas são algumas perguntas que deveriamos nos fazer diante de decisões de carreira e tantas outras. E óbvio, estamos aqui falando de um lugar de muito privilégio, pois muita gente não tem escolha alguma a fazer a não ser seguir adiante.
Muita gente aprendeu que saber dos seus limites e respeitá-los, é desculpa. Que falta de tempo é falta de prioridade. Que cansaço se resolve com mais esforço. Esse discurso parece motivador, mas costuma ser cruel.
Planejar uma carreira ignorando tempo, dinheiro, energia, saúde e fôlego emocional é como planejar uma viagem longa de carro sem olhar o tanque.
Não adianta saber exatamente onde a gente quer chegar se não sabe quanto combustível tem hoje, onde vai conseguir abastecer, quanto isso vai custar e se, no meio do caminho, vai precisar parar antes do previsto.
Nem toda fase da vida comporta os mesmos riscos, os mesmos investimentos, as mesmas apostas. Fingir que comporta costuma sair caro — e, muitas vezes, a conta aparece bem depois.
Talvez o que mais me inquieta hoje não seja a falta de esforço das pessoas, mas a quantidade de coisas que a gente normaliza quando fala de sucesso profissional.
Como se tudo fosse apenas uma questão de vontade. Como se contexto, rede de apoio, cuidado com as relações e consciência dos recursos que se tem (ou não tem), fossem detalhes menores.
Quem sabe, carreira não seja só sobre onde a gente quer chegar.
Talvez seja, principalmente, sobre como estamos “despertos” enquanto caminhamos — para perceber e agir, especialmente sobre aquilo que a gente nunca parou para nomear.
Abraço afetuoso,
Adri

Strengths Coach certificada pelo Gallup® Institute
Executive Coach Certificada pelo Integrated Coaching Institute (ICI)
Certificação Internacional em Coaching Integrado

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