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Nem todo mundo chegou até aqui pelo mesmo caminho

EM
26 de janeiro de 2026
|
por
Adriana Ferrareto
Outro dia, eu estava dando um treinamento online numa empresa. Na tela, pessoas de todas as idades: baby boomers, geração X (a minha), millennials, geração Z. Todo mundo junto, olhando para o mesmo problema. Ou, pelo menos, achando que estava olhando para o mesmo problema. Não estava. Cada um reagia de um jeito. Um falava […]
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Outro dia, eu estava dando um treinamento online numa empresa. Na tela, pessoas de todas as idades: baby boomers, geração X (a minha), millennials, geração Z. Todo mundo junto, olhando para o mesmo problema. Ou, pelo menos, achando que estava olhando para o mesmo problema.

Não estava.

Cada um reagia de um jeito. Um falava rápido demais. Outro parecia precisar de mais tempo. Um queria ir direto para a solução. Outro queria entender o contexto. Em poucos minutos, a conversa virou um pequeno caos educado hahaha.

Em algum momento, confesso, pensei: “Pronto. Fiquei velha mesmo.” E logo em seguida veio a pergunta que doeu um pouco mais: como é que a gente ensina — e aprende — quando as pessoas não só pensam diferente, mas literalmente foram formadas por mundos diferentes?

Essa cena ficou comigo. Não só como educadora, mas como alguém que também está envelhecendo. Que gosta do que faz. Que pretende continuar trabalhando por muitos anos. Mas que quer seguir conectada, viva, interessante — sem precisar se violentar para caber num tempo que muda mais rápido do que a gente consegue metabolizar.

Dias antes, eu tinha lido um relatório sobre o Futuro do trabalho (2025–2026). Ele dizia algo aparentemente simples, mas historicamente inédito: é a primeira vez que quatro — caminhando para cinco — gerações convivem ao mesmo tempo no mercado de trabalho. Baby boomers, geração X, millennials, geração Z. E a geração Alpha já está ali, estudando, se formando, batendo na porta.

Isso não é só diversidade etária. É diversidade de formação de mundo.


Às vezes imagino todas essas pessoas sentadas em volta de uma mesa tentando resolver o mesmo problema. Foi mais ou menos o que eu vi naquele treinamento. E o que apareceu ali não foi só diferença de opinião. Foi diferença de referências, de ritmo, de expectativa, de noção de tempo, de autoridade, de lealdade, de carreira, de risco.

Algumas daquelas pessoas aprenderam a estudar em biblioteca. A fazer pesquisa em livro. A construir pensamento em camadas, com tempo, silêncio e alguma solidão. Vieram de um mundo em que a ideia de confiança tinha peso. Em que “valer o fio do bigode” não era metáfora simpática — era estrutura de relação.

Outras nunca viveram sem internet. Já começaram a carreira com GPS, jogos virtuais, buscador, nuvem, inteligência artificial. Para elas, o mundo sempre foi rápido, acessível, atualizável.

Isso muda tudo. Inclusive o jeito de pensar.

O neurocientista Miguel Nicolelis comenta algo curioso: “quando a gente usa Waze, por exemplo, estamos usando sobretudo o campo visual. Seguimos setas. Viramos à direita ou à esquerda. Mas não ativamos da mesma forma aquelas áreas mais profundas do cérebro que constroem o mapa interno do caminho”.

Quem aprendeu a se orientar perguntando “vira na padaria, segue até o muro amarelo, depois dobra à esquerda” precisou criar outra relação com o espaço. O caminho morava dentro da cabeça. Hoje, ele mora na tela.

Não é melhor nem pior. É diferente.

Só que diferença cognitiva não é detalhe.

Eu mesma sou dessa geração que atravessou a ponte. Comecei a vida sem computador, sem celular, sem internet. Na adolescência, fui aprender processamento de dados, Cobol, Basic, DBase. Saí do telefone de disco e de usar fichas no orelhão, para a lógica da programação.

Nunca foi exatamente natural para mim. Até hoje vivo um pouco nesse fio da navalha: amo ler livro de papel, riscar, rabiscar pensamentos à mão. E, ao mesmo tempo, preciso habitar as tecnologias para trabalhar, me comunicar, existir profissionalmente.

Essa travessia não é só técnica. É existencial.

Quando pessoas de formações tão diferentes se sentam para discutir liderança, carreira, decisões difíceis, o que aparece não é só conflito de opinião. É conflito de tempo interno. De expectativa sobre estabilidade. Sobre lealdade. Sobre o que é sucesso. Sobre o que vale a pena suportar. Sobre o que é inegociável.

E agora ainda temos a camada da inteligência artificial.

O mesmo relatório que fala das gerações fala também das chamadas “soft skills”. Ele fala de pensamento crítico. Da capacidade de checar fontes. De entender viés. De perguntar “a serviço de quê?” antes de simplesmente usar uma resposta pronta.

Fala, no fundo, de ética. E ética nunca foi uma questão tecnológica. Sempre foi uma questão humana.

Talvez o ponto mais delicado de tudo isso não seja a velocidade das mudanças, mas o fato de que estamos tentando viver tudo isso ao mesmo tempo: envelhecer, nos adaptar, trabalhar, aprender, desaprender, continuar relevantes, continuar inteiros.

Eu não quero transformar isso num discurso saudosista. Não acho que “antes era melhor”. Acho, sim, que antes era outro mundo. E que algumas coisas daquele mundo talvez não merecessem ter sido descartadas com tanta pressa.

Também não acho que dá para viver olhando só para trás. Mas talvez dê — e precise — viver olhando para trás e para frente ao mesmo tempo. Com algum cuidado. Com alguma responsabilidade. Com menos arrogância histórica.

Se estamos todos sentados em volta da mesma mesa, talvez o desafio não seja só resolver o problema. Talvez seja, antes, aprender a reconhecer que nem todo mundo chegou até ela pelo mesmo caminho. E que isso muda — silenciosamente — tudo.

No fim das contas, eu sigo trabalhando. Sigo curiosa. Sigo querendo entender esse tempo estranho que mistura aceleração, esgotamento, potência e ruído. E sigo me perguntando como atravessar tudo isso sem perder aquilo que, justamente por não ser atualizável, talvez seja o que mais importe.

E talvez essa seja uma boa pergunta para continuar levando para a mesa.


Se esse texto te atravessou de algum jeito, talvez valha a pena se perguntar: de que mundo você vem — e o que disso você não quer perder, mesmo vivendo em outro?

Abraço afetuoso,

Adri Ferrareto

www.adrianaferrareto.com.br

Referência: Relatório sobre Futuro do Trabalho


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#gerações #tecnologia #cultura #IA #contemporaneidade #softskills

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Adriana Ferrareto

Strengths Coach certificada pelo Gallup® Institute
Executive Coach Certificada pelo Integrated Coaching Institute (ICI)
Certificação Internacional em Coaching Integrado

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Especialista em talentos humanos e estou aqui para despertar e fortalecer pessoas a usarem naturalmente suas potencialidades com autonomia, para se sentirem mais realizadas com seu trabalho e tenham uma vida mais leve e equilibrada.
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