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Por que estamos olhando tanto para 2016?

EM
10 de fevereiro de 2026
|
por
Adriana Ferrareto
Tenho percebido, com certa insistência, muita gente voltando os olhos para 2016. Fotos reaparecem, playlists daquele ano circulam de novo, comentários do tipo “naquela época era melhor” surgem aqui e ali. Não como lembrança casual, mas quase como um lugar simbólico para onde se retorna quando o presente aperta. Não parece só moda.Nem apenas saudade. […]
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Tenho percebido, com certa insistência, muita gente voltando os olhos para 2016. Fotos reaparecem, playlists daquele ano circulam de novo, comentários do tipo “naquela época era melhor” surgem aqui e ali. Não como lembrança casual, mas quase como um lugar simbólico para onde se retorna quando o presente aperta.

Não parece só moda.
Nem apenas saudade.

Às vezes me pergunto se esse movimento coletivo de olhar para 2016 não tem menos a ver com aquele ano em si e mais com a dificuldade de sustentar tudo o que veio depois.

Talvez 2016 tenha se tornado esse marco porque foi um dos últimos momentos em que o futuro ainda parecia, de algum modo, legível. Não simples. Não justo. Mas possível de imaginar.

Depois disso, o mundo ficou mais pesado.

Vivemos anos atravessados por pandemia, guerras que voltaram a fazer parte do cotidiano, tensões geopolíticas constantes e uma crise climática que deixou de ser previsão para virar experiência concreta.

Soma-se a isso uma cultura que transformou tudo em desempenho: trabalho, corpo, relações, escolhas, felicidade. A vida inteira virou um projeto a ser sustentado sem falhas — e o futuro, mais uma cobrança silenciosa.

Nesse cenário, imaginar o amanhã deixou de ser apenas exercício de desejo. Passou a exigir esforço emocional.

Sonhar precisa de matéria-prima: energia psíquica, algum senso de continuidade, um mínimo de confiança de que o amanhã não será apenas pior.

E essa matéria-prima anda em falta.

Tenho a sensação de que continuamos sonhando — mas de um jeito meio torto.
Mais estreito. Mais defensivo. Menos conectado ao que acontece fora da nossa própria vida.

Talvez o estranhamento esteja justamente aí. Nem sempre sonhar foi um exercício solitário.

Houve momentos históricos em que imaginar o futuro não era um gesto privado, mas uma necessidade coletiva. Quando a vida estava em ruínas, como no pós-guerra, a pergunta não era apenas “o que eu quero para mim?”, mas “como reconstruímos a vida juntos?”.

Hoje, a crise climática talvez seja o exemplo mais evidente desse limite — embora esteja longe de ser o único. Não existe solução individual possível para um planeta que dá sinais claros de exaustão.

O mesmo vale para a democracia, para a desigualdade, para o próprio modo como organizamos a vida econômica como sociedade. São desafios que exigem imaginação coletiva, pactos mínimos, algum horizonte compartilhado.

O problema é que estamos tentando enfrentá-los num tempo marcado por polarização extrema, desconfiança mútua e esgotamento generalizado — um tempo pobre justamente na matéria-prima que torna possível sonhar juntos.

Quando isso falta, os grandes sonhos coletivos ficam paralisados. E, sem eles, os sonhos pessoais também perdem sustentação.

Porque nenhum projeto individual se mantém por muito tempo num mundo que não consegue sequer imaginar, em comum, como continuar existindo.

Não é que as pessoas estejam escolhendo sonhar menos.
É que, sem matéria-prima, o sonho não chega a se formar.

Imaginar o futuro virou quase um exercício de cautela. Planejar passou a se parecer mais com gestão de risco do que com desejo. E, quando até os referenciais mais básicos deixam de oferecer algum chão — trabalho, moradia, pertencimento, continuidade — o sonho encolhe. Não por falta de vontade, mas por excesso de incerteza.

Nesse cenário, proteger-se vira uma reação quase automática.
E, sem perceber, muita gente começa a olhar para trás.

Não porque o passado tenha sido melhor.
Mas porque parece menos ameaçador do que um futuro que exige tudo — e não promete nada.

Há um poema de Carlos Drummond de Andrade, escrito em 1942, que atravessa o tempo justamente por nomear esse momento em que a promessa se esgota e o caminho deixa de responder. No poema José, tudo termina — a festa, a luz, a utopia — e o que permanece não é solução, é pergunta.

E agora, José?

É isso que parece ecoar quando olhamos tanto para 2016.
Não um desejo real de voltar, mas a dificuldade de sustentar o que veio depois.

O que chamamos de nostalgia começa a se revelar como sintoma. Um sinal de que o nosso tempo secou a matéria-prima do sonho — e de que imaginar futuros, hoje, exige muito mais do que esforço ou vontade individual.

Não estamos olhando para 2016 por saudade.
Estamos tentando ficar de pé num tempo em que o chão ficou instável demais para sustentar o futuro.


Abraço afetuoso,

Adri


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Adriana Ferrareto

Strengths Coach certificada pelo Gallup® Institute
Executive Coach Certificada pelo Integrated Coaching Institute (ICI)
Certificação Internacional em Coaching Integrado

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Sou a Adri

Especialista em talentos humanos e estou aqui para despertar e fortalecer pessoas a usarem naturalmente suas potencialidades com autonomia, para se sentirem mais realizadas com seu trabalho e tenham uma vida mais leve e equilibrada.
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